sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Um acontecimento extraordinário (texto em fase inicial)

Não raro sentimos uma espécie de cansaço, de lassidão com uma idéia de ostracismo e improdutividade que vemos o leito ou um sofá de sala e somos impelidos a reclinarmos o corpo, já tão pesado de sono que os sentidos de vigília, de percepções, de atenção e inúmeros outros fenômenos seriam facilmente descritos como psicopatológicos, oriundos do sonho, de alucinações e por vezes de delírio. Com isso recordei-me de dois escritos, um de Baudelaire e um de Manuel Bandeira. Do primeiro assomou-se-me ¨Paraísos Artificiais¨ e do segundo o Poema ¨Canção do mar¨. Abstenho-me de explicações, elas virão ou não; da idéia de compreensão não ouso proferir nada, essa não virá, estamos à sua cata amiudadamente mas a obstinada foge célere. Quanto à ¨verdade¨, essa com um esforço de solitários num deserto procurando um oásis ou com febre tomando reclinados um pouco d´água e olhando-nos então num espelho, vem em palavras-som ou até num eidetismo rapidíssimo numa representação de nosso próprio corpo ao nosso lado, na verdade uma percepção muito real do próprio corpo, uma heautoscopia, para dizer sem pudores. Há cores, há sons, há lembranças, há vergonhas e viagens a lugares longínquos? Para bem dizer a verdade, hoje estive com o Papa, por que não dizer, até seria o mais adequado, que o Papa esteve comigo? Porque ele não estava só, nem todo seu séqüito de múmias ancestrais causariam tão forte impressão do que o casal de fios e de pais, por exemplo, que nos acompanharam naquela viagem: o Papa tinha a cara de Sancho Pança mas ¨era¨ o Papa, calvo, velho, cansado mas extremamente poderoso. Devo adiantar-me que não há alegorias ou troças nisso, assim foi como me pareceu. Esse ¨era¨ entre essas inevitáveis aspas soôu revelador ( de quê?), mas soôu como que parecendo a chave de uma compreensão, um entendimento de gnomo. ¨Quero esquecer tudo, quero descansar¨. Pois é. Havia bruma e havia vento e uma água escura como breu, mas já me antecipo nas câmaras da obscuridade.
Sim, foi hoje, como disse anteriormente. Não olvidaria esclarecer logo que foi hoje, nessa tarde chuvosa, nesse mês quente nos trópicos. Contudo, poderia ter sido num átimo ou em dois meses, segundo minha possibilidade de contar, errando ou acertando, ¨contando¨, enfim. Já agora percebo que afora a Cultura Católica, recordando um trecho de uma película de Buñuel: ¨Todos são católicos. Os Muçulmanos são católicos. Os judeus mais ainda¨ (e não à toa que recordo-me de bom-grado do mestre amigo de Salvador Dalí, de um mestre do onirismo lúcido, por assim dizer), disse que estive com o Papa e após o Papa é quem esteve comigo. Em verdade vos digo que o Papa e eu estivemos juntos numa aventura Épica de vários dias, não me recordo bem, no dia de hoje, como disse, os dias são multiplicáveis de vivências, não vivências de Tempo e Espaço, digo vivência para situar minha aventura de ventos e mortes e águas escuras num não sei quê de Existência. Que se conte o que vem a seguir ou o que se segue desde o início desse relato ¨escandaloso¨ em minutos, horas, segundos, dias, semanas, meses, anos talvez. Pois bem, vai sendo, medíocre ou sublime mas simplesmente sendo.
Estávamos num Navio, quiça um Vapor, éramos então eu,

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Algumas gravações de EILEEN JOYCE no youtube


Eileen tocando Liszt ,Estudo de Concerto n.3:




Eileen tocando Liszt, Estudo de Concerto n.2 (Estudo do Gnomo):




Eileen tocando Donhanyi, Rapsódia em Dó:




Eileen tocando Fauré, Improviso n.2, em Fá menor:




Eileen tocando Debussy, Clair de Lune:


Eileen tocando Granados, Allegro di concierto
GOSTARIA DE SABER A OPINIÃO DE QUEM ESCUTOU.

EILEEN JOYCE, DAMA DO PIANO

Eileen Joyce (1912-1991): O mínimo que se pode dizer de Eileen Joyce (EJ) é que ela foi indubitavelmente uma pianista excepcional em diversos sentidos e por várias razões. Em minha muito particular opinião, ela é, mesmo, ao lado de Annie Fischer e de talvez Monique Haas, uma das Grandes Damas do Piano do séc. XX e um dos maiores nomes da História da Música, ouso proferir. Não é escopo desse pequeno texto elucubrar acerca de supostas justificativas do ¨esquecimento¨ ou da sobrevaloração das grandes personalidades_ isso endossa e de certo modo explica o meu enquadramento na categoria de um fã incondicional dessa artista magnífica que quer por aqui publicar sua paixão, com justificativas minhas (corroborada ou compartilhada também com muitos). Movido sobretudo pelo entusiasmo e pelo deleite de escutar gravações de Eileen, além de ouvir o testemunho de alguns que tiveram o privilégio e o encantamento de a assistirem em público e mesmo a terem conhecido pessoalmente, ensaiarei antes de tudo discorrer sobre: 1. Por que EJ foi excepcional em diversos sentidos e por várias razões? ;2. Sua importância como intérprete e divulgadora da música não só como concertista mas como uma das pioneiras e grande entusiasta do processo de registro sonoro de sua arte em forma de gravações em discos 78rpm e depois LPs;3. Sua versatilidade e familiaridade com diversas obras de diversas escolas, ressaltando sua técnica surpreendente (uma das maiores dentre a de todos os extraordinários pianistas, comparada à de Godowsky e Annie Fischer, p.ex); 4. Alguns aspectos básicos de sua biografia.
Seguindo esse intuito, que me é forçoso delinear sem demonstrações patentes de imenso apreço e admiração, reitero, tentarei seguir os propósitos enumerados acima. Tentando responder à indagação do motivo de EJ ter sido excepcional em diversos sentidos e por várias razões, tentarei expor alguns fatores, sem, espero, perder o todo de vista, que seria para mim como ensaiar definir uma ¨Rainha¨ do piano, uma Rainha Poeta. Seu brilhantismo técnico, por exemplo, impressionou Backhaus_ um dos grandes senhores do piano e reconhecido como tal_ quando ainda era bem moça. Ele viu em Eileen uma grande promessa para o Patrimônio da arte pianística, uma artista do piano, em sua opinião, dotada já de uma técnica assustadora e de fraseados pomposos e líricos. Uma mulher advinda de uma classe pobre ¨mas que a incentivou a desenvolver seus dotes artísticos¨, da Austrália, tendo iniciado seus estudos aos 9 anos, com 14 já era uma virtuose, ocasião em que Backhaus a escutou, num Concurso, em que foi laureada com o primeiro lugar. Com carta de apresentação do grande pianista, foi para a Alemanha, para o Conservatório de Lipsia, em 1927, estudar com um dos maiores mestres e entusiastas na formação de grandes pianistas, Robert Teichmüller. Tomou aulas também com o grande virtuose Max Pauer. Em 1930 EJ vai para Londres, onde desponta numa carreira glamourosa e com incassáveis tournées, participações nas trilhas sonoras de diversos filmes, ressaltando sua legendária interpretação do Concerto n.2, de Rachmaninoff, tocando com os maestros Albert Coates e com Henry Wood, p.ex, e seu début, em 1930, tocando o Concerto n.3 de Prokofiev. Nessa ocasião, então contando somente 18 anos, já recebeu um elogio estrondoso de Piero Rattalino, rigorosíssimo crítico:¨ Joyce possui, antes de mais nada, uma agilidade e destreza digital digna de HOFFMAN e quase de PUGNO¨. GLENN GOULD após a considerou a maior ou uma das maiores intérpretes de Mozart. Teve graves problemas durante a Guerra, perdas e incomensurável sofrimento, escusado mencionar aqui. Em 1948 atinge, inobstante, ponto altíssimo de sua carreira e é então já aclamada como uma das pianistas que mais gravou, que mais interpretou para filmes, com uma elegância raríssima, um pianíssimo considerado dos mais belos de todos os tempos, um rigor de tempo bastante natural e assombrosamente equilibrado, fraseados bem realçados em qualquer estilo ou peça que tocava, um touché de extremo bom gosto, concertista em tournées quase ininterruptas, um porte de Condessa ao piano e quando se vestia, sempre impecável com suas luvas de coleção e seus vestidos nobres. Sempre fiel à sua escola, lisztiana, gravou bastante obras de Liszt e, particularmente, com interpretação incomparável desse que foi um dos maiores nomes da Música de todos os tempos. Tocava Liszt tão bem que é difícil crer no que se ouve, sobretudo os Estudos Transcedentais e os de Concerto. Tocava Liszt com uma bravura de heroína indescritível. Gravou transcrições feitas por Liszt de várias obras de Bach com um toque único. Em Grieg são impressionantes sua sensibilidade, vida e ternura com que trabalhou as Peças Líricas para Piano (destacando sua interpretação do Minueto para a avó). Tocou dois compositores que desafio alguém sugerir um nome melhor do que o seu, a saber: SINDING (sobretudo Rustle os Springs) e DOHNANYI. Foi também intérprete muito valorizada das Baladas de Chopin e da 2a Sonata desse dificílimo e grandíssimo compositor. Tocou os Improvisos e os Noturnos de Fauré com maestria e dignidade, além de tocar Debussy quase tão bem quanto Walter Giesiking, que é insuperável na interpretação do francês, a despeito de tocar melhor do que ele algumas peças, sobretudo as da Suite Bergamasque, assim como tocou Ravel quase tão bem quanto Monique Haas, que dedicou sua vida praticamente às interpretações de Debussy e sobretudo Ravel, que gravou na íntegra. Em 1991 morre aos 79 anos, solitária em seu modesto apartamento em Londres, com seu gato, companheiro inseparável dos últimos anos.
Enfim, um conselho que dou para quem vive intensamente a Música e para os candidatos a pianistas que pensam ainda que o grande segredo do tocar bem é antes de tudo ouvir o bom, é: ouçam Eileen Joyce!!
PS: Há umas gravações no youtube dessa pianista indescritível. Recomendo, para quem quer ouvir música da melhor qualidade.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Madame (texto ainda em construção)

Sim, não se podia negar o que os olhos queriam ver por detrás da cabine do Expresso, Madame, que´est-ce que vou voulez, Madame, sua visão, essa mesmo, de Rei, Rainha ou plebeu, essa percepção visual calcada ou antes edificada com ilusões claro que de teor afetivo, claro, pois tudo era assim, uma agonia e uma esperança, ao passo que via as monótonas porque repetidas, reiteradas, mesmas planícies de um tempo de degelo, claro que poderia ser de primavera se Sua Majestade assim o desejasse, pois ela, Rainha do Glamour de do tempo gasto porque antigo, essa coisa de tempo antigo é realmente digna de um reproche grave, mas quem se importaria com o olhar do Prícipe criança, Sua Alteza ainda na meninice e sentado ao lado de Madame, pois sim, não haveria necessidade para qualquer sujeito saber da oficilidade de sua Realeza, antes de olhar Madame sentia-se o poder do impossível, mesmo na modorra ou na geleira, mesmo com lavas de vulcão nas mentes sempre férteis não a sabiam Rainha?, antes de olhar já se havia olhado a majestade de Madame, pois que seu nome era o Inominável, pois que Madame com seu cetro poderosíssimo ou mesmo com sua mão com anéis em todos os dedos, claro que não no dedo ais longo, isso serviria para uma lavadeira para erguer-se histriônica e querelante com o dedo obsceno em riste, Madame tinha pedras em todos os dedos advindas de trabalhos árduos e conquistas ancestrais e intrepidezes que levavam à morte com a cobiça, o corpo plebeu caçador era imune à cobiça ou dos efeitos catastróficos dessa mas Madame estava com luvas de pelica branca e cobria seu corpo nobilíssimo com motivos de batalhas e imperialismo, a saber, seu casaco de pele de marta,mas Madame , onisciente, desconhecia os cataclismas da cobiça plebéia para se ganhar o pão de cada dia e orgulho e coragem porque logo destruia com um erguer do indicador qualquer conceito e também esses, seria paradoxal proferir que essa Deusa desmoronasse a própria Língua falada e implantar a pantomima como castigo em suas masmorras escuras e soturnas e fosse mecenas, mas não mecenas autêntica porque ela fazia o Sublime saltar aos seus olhos de rubi com seus caprichos ou antes suas vontades muito sábias, pois Madame não pensava, já que o Pensamento não pensa, mas Madame também se resignava, por mais ignominoso que isso sôe, com a limitação imposta pela Linguagem ou pela Vida, tanto faz, e mais ainda, era por assim dizer entendida de afetos e era mesmo uma expert, pois criava Vida mesmo dormindo, seu sonho era um Todo-Poderoso Pensamento que não parava, como se diz vulgarmente, não parava porque não começava, existia porque existia e Madame pensando, que ela perdoe atribuir um pensamento tão reles à sua Realeza _pensar_ claro que é uma maneira de me expressar, pois tento convencer a mim mesmo que o Pensamento não pensa, seria um absurdo lexical, não?, mas Madame olhava para o seu mais miserável vassalo, mesmo esse sendo um Conde quem não serviria à soberania absoluta de Madame?, pois ela simplesmente falava e não pensava, não era voz aquilo, era uma sinfonia, claro, mas Madame sinfonizava e então havia uma linha melódica intensa mesmo antes do tema, não era contraponto nem nada disso, era como assim:¨Volga, Danúbio Azul¨, Tethys revirava o que lhe era dado ao alcance e com Netuno fazia o rio virar mar e as planícies eram Volga mesmo se ela estivesse na Hungria, então tornava-se cega, da cegueira dos homens, para ser cega contra o Sol, pois Madame era precipuamente e quase sempre sombria, mas obscura mesmo, pois se pensar que o pensamento é luz, grande ilusão afetiva e com forte teor reducionista, por certo, não se concebe Madame, uma chance de divisar uma indefinição ou uma coisa fosca de madame por um átimo de tempo dever-se-ia pensar humildemente num Nirvana, o problema era que Madame sendo o pensamento impossibitava os fatos mais simplórios aos mais simplórios, nem Sua Alteza menino via o invisível aos olhos, claro que a ¨conhecia¨ antes de enxergá-la, pois esse antes não era nada senão nada sem o impossível porvir, o menino não via e sabia, nã pensava e sentia-a toda na sua cumplicidade quase orgíaca, pois o menino era o amante da Imortal, ela o chamava todas as noites e o despia e pensava aniquilando tudo, mas esse tesouro meu tesouro agora, meus violinos minhas trompas meus fagotes era todo corporalmente meu, criei-o e posso destruí-lo, mas não iria destruir o Sexo que crio e em que crio pois eu na minha existência secular nõ sou Marta e quero o todo poderoso do menino de 17 anos, ele vem a mim e eu o abocanho e converso com seu todo poderoso sugando-o e bebendo o líquido da vitalidade por meus poros, pois confesso que minha limitação de corpo deve ser representada com meus 130 anos contados pelo Mago, não o mago de palavras pois nem ao menino nem ao feiticeiro foi dada a bruxaria da Linguagem, peremptoria é a minha fome ou antes enloqüência de verbos existindo no Corpo, claro que o verbo não faz do corpo uma linguagem nem tampouco uma língua, corpo não é linguagem nem o meu etéreo ao dia e voraz, bem corpo à noite, pois o séqüito beijava-se pois era dado ao séquito beijar-se em sua frente, esses fantoches, às vezes esses homens plebeus batiam no menino e esfregavam-se nele, que os ajudava abaixando as calças e as lantejoulas, claro que o séqüito era uma gama de fanfarrões de 20 anos, quem tem mais de 20 anos, se a Deusa permitir que exista para seus caprichos alguém com mais de 20 anos teria 30, será que há alguém com mais de 30 anos, pois que a Majestade cantou com suas pérolas e rubis e diamantes e ametistas que ela com 130 anos não era nem mulher, evidentemente, pois mulher era-lhe, admitamos logo, um subterfúrgio para imorais entre os sempre jovens homens, já que Madame destruíra a velhice que não fosse a que lhe atribuia o Mago, que era na verdade um pensamento efêmero seu para entreter-se com o que se entendia por idade, palavra devassa, mas insigificante, claro que a idade avançada não, pois o que inexiste tenta forçar sua elucubração em imagens e conceitos que não existem em absoluto pois a faculdade de pensar foi evidentemente dada a Madame e também a criação e a imaginação, essas duas coisas, escusado dizer, inseparáveis, mas Madame não recebe seu semblante desse vassalo que escreve, pois nada sei ou se soubesse não haveria como dizê-lo, já que pode-se sentir sem pensar, no Reino absoluto de Madame pode-se, esse reino viril de uma detentora de tudo menos do todo poderoso da rapaziada, por isso havia o que se chamava de tudo ou de Humanidade ou de Rússia ou de Mônaco ou de França, pois não lhe era possível ter o todo poderoso entre as pernas e na cabeça ao mesmo tempo, com isso surgem rios e mares e desertos e florestas vastíssimas e tempestades, pela rapaziada, pois o tempo parou para os moços e ao seu bel prazer elge suas idades ou o que se chama canhestramente assim, idade, um dia eu quero esse bem fértil, longuíssimo e muito privilegiado no diâmetro, digamos assim logo, mas esqueci-me de dizer que escrevo o que Madame faz por mim de modo bem geométrico, digamos assim, por exemplo, se ela diz quadrado pi r ao quadrado eu escrevo Reino Anal, mas pode ser subjetivo: ela diz Brahms (estou falando diz por falta de outra palavra, pois Madame já é o dito antes do dito, é o não-dito que se entende por soerguer de um sobrlho), Brahms então eu vassalo do absoluto escrevo: Reino Simplesmente, como não entenderia nada como simples, pensaria em forma clássica para surgir um barroco, ou antes um grito abafado romântico para pensar a dor incomensurável da sentença ¨Eu sou eu¨, Madame então divisa Sua Alteza e coloca-a sugando o que ela suga centenas de vezes à e arranca com cuidado na criação dos castratos de suas óperas diurnas, pois óperas noturnas não há pois ópera é o conjunto de opus que é a obra e o todo poderoso se tem opus só Madame sabe mas faz que não sabe, como 130 anos?, a voracidade também cria, além da Linguagem, nesse caso, a pausa e os intervalos que machucam mais que o todo poderoso, esse inócuo de possibilidades de ferir, mas os Intermezzos ferem todos à exceção de Madame, que nao sente e só pensa, os homens sentem e pensam que pensam, o que é um escândalo, felizmente ocultado de Madame, nessa coisa de pensar que pensam tapam o sol com a peneira para ele ficar assim bem quadradinho e à noite ficar sempre noturna pois a impudicícia, por assim dizer já que não há moral ou pudor para os homens, só para Madame, é um conceito dado à aparente publicidade mas é passível de ser concebido somente por Madame

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A Mulher Majestade

In the summer the days are easy, don´t you realise that the trough, yes, the through is something like blue days with blue birds singing with some nostalgic tune, there are smoth issues, just can´t you remember the rapsody nor the waltz with the man you love or something like that. Ensaiava seu inglês pensando sobre o parapeito e segurando as grades daquela cela suja, com sua mão curta de dedos curtos, estava e pensava-se toda pesada e baça, era uma mulher corpulenta, estava olhando o recanto de parreiras que havia ali perto, ao alcance de seu golpe de vista, sim, sempre no través sentia-se toda remota do que se teria facilmente concebido como seu presente ou sua situação de condenada e de presa. Apoiando-se com sua face balofa contra as grades até que começavam a surgir marcas mais significativas advindas desse seu hábito dos últimos tempos de recordar-se sofrendo sua dor de estar ali vagueando com um idioma que não era o de sua pátria natal mas que fora seu um dia, já que quando em Nova Iorque esteve por alguns anos esquecia-se da impostura de agradecer com palavras e quedava a cabeça, lassa. Pois havia sido feliz, pensou, e havia sido bonita e a boniteza que chamava a atenção dos passantes do Central Park repleto de aléias e alamedas que escondiam seus segredos e rebiam olhares de contemplação lenta por serem exuberantemente verdes e, dir-se-ia, alvo de olhares falsamente alegres mas sequiosos de uma liberdade louca.
Parou sentada no leito e firmava os braços roliços sobreas pernas e colocou-se de súbito ávida de percepções rápidas, assim, como se quisesse ficar com o que se lhe ocorresse por representação, por percepções, por memórias de fatos longínquos e recentes e começou assim, com uma dor aguda, sentiu-se toda enferma do suor pingar por todo o seu corpo. Eu quero muito, sou a mesma e meus brilhantes, meus brilhantes e meus rubis, eu não roubei ninguém, foi assim, num dia de sol uma mulher estava no Passeio Público e seu cabelo era ruivo, o meu louro, mas não era isso, seu vestido vermelho, seu cabelo cortado à demi, seu pescoço longo de girafa e seus olhos profundos de coruja, era um escândalo ela usar também rubis nos anéis dos dedos finíssimos, ela não tinha homem algum, mulher não sei, ela não tinha nada a não ser aqueles berloques e eu toda cheia de ar e de perfume de gardênia e eu loura de cabelos cacheados e o calor, o calor, mas eu estava leve, eu era eu antes da ponte, a mulher estava do outro lado e me mirou de relance, deve ter visto sua pequenês de burguesa e minha grandesa de poetisa, de poetisa que não escreve, mas você não entenderia, eu parada e a observava ávida de esperança não por ter aquelas jóias, pois isso de esperânça por ter jóias situa-se na espera mais nobre, e eu não sou nobre e sim uma mulher. Ela queria roubar minha boniteza de atrair transeuntes do Centra Park no Passeio?, mas doida ela não era a esse ponto. Estou aquecendo minha possibilidade de comunicação para tentar ou ensaiar uma esperança de vida plena de liberdade.
Não comera o dia inteiro e a noite inteira e plantando a vista sobre cachos de uvas frescas e se refastelando com o gosto que deveria ser muito doce, ela que não agradecia com thank you dizia de si para si obrigada, mulher, vê se sonha mais você mesma sendo você comendo uma uva, assim como quando os nazistas invadiram Paris e passaram pelo Arco do Triunfo, não comera o dia inteiro e apercebia-se como uma besta esfaimada de vida e de vida de liberdade, note-se bem, vida de liberdade era o seu conceito mais repugnante. Respirava e respirava e acendeu um cigarro: a luz aparece quando dela não mais precisamos por sermos nós mesmos sem nós, em estado de pura leveza, em estado etéreo, ela estava num nirvana, era liberta, tinha a sua liberdade de mulher e estava na ante-sala do casarão, estava na ante-sala converando com uma mulher ruiva com cabelo à demi. Sentou-se pesada.
Quanto à mim, sir, sou sim sua criada, e o meneio de cabeça lasso deixava mostraar que ela era toda agradecimento, sou um pássaro de rapina, claro, desses que voam sobre oceanos e mares bravios à cata de caça e encontravam o que se lhes saciava a sede e a fome, pois então, eu sou uma águia e não uma coruja lenta, voou e houve sangue, e houve pancada surda, e houve um crânio com o occiput rachado, e depois elas são minhas pois eu sou elas, para que um cadáver se gabar com cabelos à demi de algo tão reluzente?, era polícia e gritos, louca, assassina, arrebenta, e o julgamento e ela mastigando balas e toda sua realeza e após o Manicômio Judiciário, claro que eu me livro disso, eu sou detentora do conceito de liberdade, eu estou presa de alcunha, eu sou livre como uma libéula, mas tenho que recuperar minhas jóias, qual Rainha digna não se cobre de jóias, estou assim, sabe.
Não disse antes porque não deveria ou não me ocorreu: quando ela provou da uva da parreira sentiu-se toda ela, sentiu-se não mais loura mas ruiva. Correu, correu, correu, passou pelo Passeio Público, passou pela Praia de Botafogo, foi para sua casa no São João Baptista. ¨Fascínora morre inexplicavelmente quando matou e, com maneirismos bizarros tentava alçar vôo e, com um passar de mãos incessantes pelos dedos e pelo pescoço cai pesada num terreno baldio em Jacarepaguá. O relato de três testemunhas surpreendeu ao dizerem peremptoriamente ter visto uma dama solene caminhando plácida, após esse episódio obscuro, com o cabelo cortado à demi, ruiva e com majestade, como que alheia a isso.¨ Disseram por ai que a mulher ¨louca¨ era ruiva também e seu cabelo era cortado à demi.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Escrito todo acanhado

Talvez seria escusado ou me seria mesmo inútil, para tentar ser sincero _ pois que o faço sempre que posso, no discurso, nas possibilidades atinentes ao que se chama Linguagem, para mentir um pouco, pois ser sincero também é uma forma de mentir um pouco; evidentemente mente-se menos para si e para quem interessa proferir que ser sincero é algo que habita na esfera da impossibilidade_ seria escusado que muito hesitei em criar uma sorte de ¨espaço¨, na verdade um compromisso para comigo, precipuamente, em escrever, falar, dizer, ter uma certa responsabilidade nessa leviandade que se tem como um tesouro sério e iviolável, sentida e vivida por muitos, imperceptível para quase todos. Anseio por vorazmente aqui ir existindo por palavras e por imagens, por sons quiça, já que ainda não apredi esse artifício que talvez seja oferecido e minha coisa de ser meio aéreo com a comunicação pública me tolha um pouco no conhecer a máquina, que se entenda esse termo como aprouver. Para quem escrevo? Não seria hipócrita de dizer que para mim mesmo. Alea jacta est.