Eileen Joyce (1912-1991): O mínimo que se pode dizer de Eileen Joyce (EJ) é que ela foi indubitavelmente uma pianista excepcional em diversos sentidos e por várias razões. Em minha muito particular opinião, ela é, mesmo, ao lado de Annie Fischer e de talvez Monique Haas, uma das Grandes Damas do Piano do séc. XX e um dos maiores nomes da História da Música, ouso proferir. Não é escopo desse pequeno texto elucubrar acerca de supostas justificativas do ¨esquecimento¨ ou da sobrevaloração das grandes personalidades_ isso endossa e de certo modo explica o meu enquadramento na categoria de um fã incondicional dessa artista magnífica que quer por aqui publicar sua paixão, com justificativas minhas (corroborada ou compartilhada também com muitos). Movido sobretudo pelo entusiasmo e pelo deleite de escutar gravações de Eileen, além de ouvir o testemunho de alguns que tiveram o privilégio e o encantamento de a assistirem em público e mesmo a terem conhecido pessoalmente, ensaiarei antes de tudo discorrer sobre: 1. Por que EJ foi excepcional em diversos sentidos e por várias razões? ;2. Sua importância como intérprete e divulgadora da música não só como concertista mas como uma das pioneiras e grande entusiasta do processo de registro sonoro de sua arte em forma de gravações em discos 78rpm e depois LPs;3. Sua versatilidade e familiaridade com diversas obras de diversas escolas, ressaltando sua técnica surpreendente (uma das maiores dentre a de todos os extraordinários pianistas, comparada à de Godowsky e Annie Fischer, p.ex); 4. Alguns aspectos básicos de sua biografia. Seguindo esse intuito, que me é forçoso delinear sem demonstrações patentes de imenso apreço e admiração, reitero, tentarei seguir os propósitos enumerados acima. Tentando responder à indagação do motivo de EJ ter sido excepcional em diversos sentidos e por várias razões, tentarei expor alguns fatores, sem, espero, perder o todo de vista, que seria para mim como ensaiar definir uma ¨Rainha¨ do piano, uma Rainha Poeta. Seu brilhantismo técnico, por exemplo, impressionou Backhaus_ um dos grandes senhores do piano e reconhecido como tal_ quando ainda era bem moça. Ele viu em Eileen uma grande promessa para o Patrimônio da arte pianística, uma artista do piano, em sua opinião, dotada já de uma técnica assustadora e de fraseados pomposos e líricos. Uma mulher advinda de uma classe pobre ¨mas que a incentivou a desenvolver seus dotes artísticos¨, da Austrália, tendo iniciado seus estudos aos 9 anos, com 14 já era uma virtuose, ocasião em que Backhaus a escutou, num Concurso, em que foi laureada com o primeiro lugar. Com carta de apresentação do grande pianista, foi para a Alemanha, para o Conservatório de Lipsia, em 1927, estudar com um dos maiores mestres e entusiastas na formação de grandes pianistas, Robert Teichmüller. Tomou aulas também com o grande virtuose Max Pauer. Em 1930 EJ vai para Londres, onde desponta numa carreira glamourosa e com incassáveis tournées, participações nas trilhas sonoras de diversos filmes, ressaltando sua legendária interpretação do Concerto n.2, de Rachmaninoff, tocando com os maestros Albert Coates e com Henry Wood, p.ex, e seu début, em 1930, tocando o Concerto n.3 de Prokofiev. Nessa ocasião, então contando somente 18 anos, já recebeu um elogio estrondoso de Piero Rattalino, rigorosíssimo crítico:¨ Joyce possui, antes de mais nada, uma agilidade e destreza digital digna de HOFFMAN e quase de PUGNO¨. GLENN GOULD após a considerou a maior ou uma das maiores intérpretes de Mozart. Teve graves problemas durante a Guerra, perdas e incomensurável sofrimento, escusado mencionar aqui. Em 1948 atinge, inobstante, ponto altíssimo de sua carreira e é então já aclamada como uma das pianistas que mais gravou, que mais interpretou para filmes, com uma elegância raríssima, um pianíssimo considerado dos mais belos de todos os tempos, um rigor de tempo bastante natural e assombrosamente equilibrado, fraseados bem realçados em qualquer estilo ou peça que tocava, um touché de extremo bom gosto, concertista em tournées quase ininterruptas, um porte de Condessa ao piano e quando se vestia, sempre impecável com suas luvas de coleção e seus vestidos nobres. Sempre fiel à sua escola, lisztiana, gravou bastante obras de Liszt e, particularmente, com interpretação incomparável desse que foi um dos maiores nomes da Música de todos os tempos. Tocava Liszt tão bem que é difícil crer no que se ouve, sobretudo os Estudos Transcedentais e os de Concerto. Tocava Liszt com uma bravura de heroína indescritível. Gravou transcrições feitas por Liszt de várias obras de Bach com um toque único. Em Grieg são impressionantes sua sensibilidade, vida e ternura com que trabalhou as Peças Líricas para Piano (destacando sua interpretação do Minueto para a avó). Tocou dois compositores que desafio alguém sugerir um nome melhor do que o seu, a saber: SINDING (sobretudo Rustle os Springs) e DOHNANYI. Foi também intérprete muito valorizada das Baladas de Chopin e da 2a Sonata desse dificílimo e grandíssimo compositor. Tocou os Improvisos e os Noturnos de Fauré com maestria e dignidade, além de tocar Debussy quase tão bem quanto Walter Giesiking, que é insuperável na interpretação do francês, a despeito de tocar melhor do que ele algumas peças, sobretudo as da Suite Bergamasque, assim como tocou Ravel quase tão bem quanto Monique Haas, que dedicou sua vida praticamente às interpretações de Debussy e sobretudo Ravel, que gravou na íntegra. Em 1991 morre aos 79 anos, solitária em seu modesto apartamento em Londres, com seu gato, companheiro inseparável dos últimos anos.
Enfim, um conselho que dou para quem vive intensamente a Música e para os candidatos a pianistas que pensam ainda que o grande segredo do tocar bem é antes de tudo ouvir o bom, é: ouçam Eileen Joyce!!
PS: Há umas gravações no youtube dessa pianista indescritível. Recomendo, para quem quer ouvir música da melhor qualidade.
2 comentários:
Esta pianista realmente, é uma das melhores dos ultimo tempos, tenho que confessar, fiquei realmente impressionado com seu pianismo, seu fraseado, uma grande virtuose que emociona todos que tem a oportunidade de ouvir suas interpretações magníficas. Realmente é uma Dama do Piano.
Parabéns Bernardo você realmente tem muito bom gosto, sabe reconhecer um grande talento e mostra que é um profundo conhecedor da Historia da Musica. O país precisa de pessoas como você que valorizam a Arte e demonstram amor pelo que fazem. Sou pianista e EILLEN JOICE é um exemplo pra minha vida nos meus estudo. Tenho orgulho de ser seu amigo Bernardo, tenho aprendido muito contigo mais uma vez Parabéns.
Leandro Carvalho Simões.
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