Não raro sentimos uma espécie de cansaço, de lassidão com uma idéia de ostracismo e improdutividade que vemos o leito ou um sofá de sala e somos impelidos a reclinarmos o corpo, já tão pesado de sono que os sentidos de vigília, de percepções, de atenção e inúmeros outros fenômenos seriam facilmente descritos como psicopatológicos, oriundos do sonho, de alucinações e por vezes de delírio. Com isso recordei-me de dois escritos, um de Baudelaire e um de Manuel Bandeira. Do primeiro assomou-se-me ¨Paraísos Artificiais¨ e do segundo o Poema ¨Canção do mar¨. Abstenho-me de explicações, elas virão ou não; da idéia de compreensão não ouso proferir nada, essa não virá, estamos à sua cata amiudadamente mas a obstinada foge célere. Quanto à ¨verdade¨, essa com um esforço de solitários num deserto procurando um oásis ou com febre tomando reclinados um pouco d´água e olhando-nos então num espelho, vem em palavras-som ou até num eidetismo rapidíssimo numa representação de nosso próprio corpo ao nosso lado, na verdade uma percepção muito real do próprio corpo, uma heautoscopia, para dizer sem pudores. Há cores, há sons, há lembranças, há vergonhas e viagens a lugares longínquos? Para bem dizer a verdade, hoje estive com o Papa, por que não dizer, até seria o mais adequado, que o Papa esteve comigo? Porque ele não estava só, nem todo seu séqüito de múmias ancestrais causariam tão forte impressão do que o casal de fios e de pais, por exemplo, que nos acompanharam naquela viagem: o Papa tinha a cara de Sancho Pança mas ¨era¨ o Papa, calvo, velho, cansado mas extremamente poderoso. Devo adiantar-me que não há alegorias ou troças nisso, assim foi como me pareceu. Esse ¨era¨ entre essas inevitáveis aspas soôu revelador ( de quê?), mas soôu como que parecendo a chave de uma compreensão, um entendimento de gnomo. ¨Quero esquecer tudo, quero descansar¨. Pois é. Havia bruma e havia vento e uma água escura como breu, mas já me antecipo nas câmaras da obscuridade.
Sim, foi hoje, como disse anteriormente. Não olvidaria esclarecer logo que foi hoje, nessa tarde chuvosa, nesse mês quente nos trópicos. Contudo, poderia ter sido num átimo ou em dois meses, segundo minha possibilidade de contar, errando ou acertando, ¨contando¨, enfim. Já agora percebo que afora a Cultura Católica, recordando um trecho de uma película de Buñuel: ¨Todos são católicos. Os Muçulmanos são católicos. Os judeus mais ainda¨ (e não à toa que recordo-me de bom-grado do mestre amigo de Salvador Dalí, de um mestre do onirismo lúcido, por assim dizer), disse que estive com o Papa e após o Papa é quem esteve comigo. Em verdade vos digo que o Papa e eu estivemos juntos numa aventura Épica de vários dias, não me recordo bem, no dia de hoje, como disse, os dias são multiplicáveis de vivências, não vivências de Tempo e Espaço, digo vivência para situar minha aventura de ventos e mortes e águas escuras num não sei quê de Existência. Que se conte o que vem a seguir ou o que se segue desde o início desse relato ¨escandaloso¨ em minutos, horas, segundos, dias, semanas, meses, anos talvez. Pois bem, vai sendo, medíocre ou sublime mas simplesmente sendo.
Estávamos num Navio, quiça um Vapor, éramos então eu,
Um comentário:
isso é o que eu chamaria de boa literatura - seus escritos estão fora de qualquer classificação literária e se afirmam somente pela palavra, sem precisar de nada além do que a palavra.
é um prazer passear pelos seus escritos e descobrir um universo tão próximo e distante.
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